sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Mar vivo de corações expostos


O domingo que encerrava o feriadão amanheceu nublado, chuvoso, um convite para ficar em casa curtindo preguiça. No entanto a primavera paulistana fervilhava de eventos culturais. Mas quem optou por visitar a Balada Literária organizada pelo escritor Marcelino Freire certamente acertou.

Era o dia da homenagem à escritora Lygia Fagundes Teles, bela e classuda aos 86 anos, tarde quente de temperatura e afetos. Sua presença ampliou e elevou a média etária do público, atraindo tanto seus fãs de décadas como jovens sedentos em vê-la de perto. Perguntada sobre o futuro da sua obra, ela afirmou que isso é questão dos herdeiros, no seu caso, as duas netas que cuidarão do seu legado quando for a hora.

A questão tirou por instantes o brilho daquele olhar. Para onde terá ido no breve momento? Será que Lygia se referia aos dois maridos falecidos (Gofredo da Silva Teles e João Paulo Salles Gomes)? Haveria revolta por eles terem-se ido antes dela? De qual dos companheiros sentiría mais saudade? Mas logo explicou que se referia aos colegas que deixaram este plano ao dizer com palavras acinzentadas “é um mar morto de escritores”. Melancolia que corrigiu imediatamente ao afirmar, matreira, “mas vocês fiquem tranqüilos, viu? Apesar de estar com as pernas fracas (referindo-se à fratura recente e à necessidade da bengala) espero ainda viver muito”, seguido de um sorriso cativante, meio que a garantir que ainda vai continuar brincando o eterno joguinho das palavras e ideias.

Como da mesa fazia parte Benjamin Moser, o norte-americano que escreveu a biografia de Clarice Lispector, foi inevitável ela relembrar a escriba prematuramente falecida aos 57 anos, e dividir com a platéia detalhes dos encontros com a amiga “perto demais do coração selvagem” que ocorreram em viagens de eventos literários.

Lembrou carinhosamente das falhas de dicção da colega ucraniana/ brasileira, o que ela chama de “língua presa”, e se divertiu em revelar as recomendações que Clarice sempre lhe fazia. Por exemplo, “Lygia, tirrre esses vincos da testa e vista brrranco parrra conseguirrr leveza”. Daí a camisa branca por baixo do blaser, singela homenagem à amiga.

E assim, num descortinar informal, Lygia foi deleitando o público com memórias da sua juventude de moça humilde que publicou, aos 15 anos, o primeiro livro de contos patrocinado pelo pai. Falou do emprego no Departamento Agrícola do Estado de São Paulo que rendia o salário de 400 mil réis dividido com a mãe recentemente separada do pai. O restante do tempo e do dinheiro eram destinados para os dois cursos que fazia simultaneamente: Educação Física e Direito.

Contou que Clarice, sempre irreverente, nunca se conformou com sua vida de mulher certinha, que nunca teve um amante, por exemplo. “Não houve tempo, fiquei viúva cedo e logo me casei de novo”, desculpava-se. Lygia com a amiga. Clarice também não compreendia o interesse na atividade física. “Foi um esforço enorme fazer os dois cursos paralelamente, mas eu acredito mesmo que toda moça deve exercitar o corpo com a natação, a ginástica e os jogos”.

Lygia encantava-se com os esportes de competição. E foi bem nessa hora, ao se lembrar das orientações do mestre nas aulas de esgrima que ela mostrou a sua porção poeta. Nos treinos, o professor dizia “Menina, proteja-se, seu coração está exposto”. Ao que ela completou, “não adiantou nada o que ele me ensinou, pois meu coração continua exposto, até hoje”.

Felizmente para nós, seus leitores. E mais ainda para todos os privilegiados que tiveram a oportunidade de vê-la de perto na sua elegância bem humorada. Um mar vivo de corações tão expostos como o daquela dama na tarde de um domingo prá lá de especial.

(*) Foto de Fernanda Grigolin para a Balada Literária

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Armada



Hoje acordei pouco verso, mais canção. Por isso coloco esta música da Stela Campos que traduz tudo o que gostaria de dizer neste momento. Cantora e compositora nascida em São Paulo, há muito mudou-se para Recife, e finalmente, depois de muito batalhar, agora vem encontrando seu espaço na cena musical.

Os personagens de suas narrativas musicais são urbanos e meio marginais: motoboys, corretores decadentes, operadores da bolsa, desempregados, publicitários solitários, dependentes químicos e toda a sorte de almas perdidas. Bem que o saudoso Chico Science carinhosamente a chamava de "nossa Billie Holliday de garagem!.

Aqui a letra desta canção absolutamente psicodélica.

Olhando pra trás / sumindo no chão / fechando as portas / na alta estação
Laura te espera com uma arma na mão

As horas passam / na contra-mão / os olhos giram / sem direção
Laura te espera com uma arma na mão

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sonho Douro




As marolas eriçadas
do remo cortando a água
são um retrato exato
da ansiedade engasgada
turbilhão dentro da alma

Ao atravessar o Douro
rumo a Espanha, a moça
deixa família e um noivo
corre pros braços de um mouro
largando uma vida insossa

Ereta, respiros curtos
forte, ela tenta esconder
o medo que vai na alma
mãos nas luvas, gestos justos

olhos longe noutro ser


E pela curta viagem
o barqueiro recebeu
aquele anel de noivado
antes que a noite em plumagem
enchesse tudo de breu

Nunca o barqueiro esqueceu
da tal menina coragem
nem do anel ele desfez
Tomou o sonho de seu
de em alguma viagem
um par de olhos lhe dizer
quero que sejas só meu


(*) No Areinho, Douro, óleo sobre madeira do pintor português Silva Porto, pintado em 1880. Tem 37,4 cm de altura e 56 cm de largura e está exposto no Museu Nacional de Soares dos Reis, na cidade do Porto.


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Haikai animal


No alto do muro
o galo canta imponente
e desce num pulo

**********

é um tipo de dança
o beija flor beija a flor
e encanta a criança

**********

vento açoita o ar
cai a pétala da flor
formiga vai almoçar

domingo, 11 de outubro de 2009

Solte sua imaginação


É bom demais remexer as idéias e tentar traduzi-las em palavras. Brinco disso desde criança, e talvez por isso eu sempre esteja estudando para tentar fazer isso cada vez melhor. Atualmente curso uma segunda pós-graduação em Criação Literária e, dia destes, um de nossos mestres, o grande Edson Cruz, fundador e editor do Site Cronópios, nos propôs um exercício de amplificação. Para tanto, pediu que aumentássemos "O dinossauro", do guatemalteco Augusto Moterroso, considerado o menor conto da literatura mundial, e uma das suas obras mais célebres. Aqui o conto:

"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá".
É incrível como com tão poucas palavras ele consegue dizer tanto e abrir um universo inteiro de possibilidades na cabeça do leitor.

Agora eu gostaria de desafiar você, leitor, para também brincar de aumentar esse texto, de acordo com os sentimentos que ele gerou em você, com um máximo de 150 toques (ou até 25 palavras). Vou adorar ter a sua colaboração aqui no espaço para comentários. E eu garanto, é super divertido, porque cada um segue uma direção completamente diferente.

E então, quer brincar comigo disso? Sugiro que você primeiro faça o seu texto, poste em forma de comentário, e só então leia o final que eu criei durante a aula. Aqui então, o meu final da história.

"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá. Presente ridículo, pelúcia balofa ocupando na cama o lugar que foi dele, pensou ela, planejando sair logo para providenciar a troca da fechadura".


(*) "Matrix", trabalho do instigante artista mexicano Octavio O' Campo, que mistura imagens criando novas sensações, colocado aqui justamente para ajudar você a soltar a imaginação.
(**) Se tiver um tempinho, clique lá encima no link do Monterroso, e leia alguns contos desse grande escritor. Vale à pena.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Born to be


Li recentemente uma entrevista em que o escritor Terry Pratchett soltou uma de suas frases bombásticas:

"A luz acha que é a mais rápida do universo,
mas não importa o quão rápida ela seja,
a escuridão está sempre lá antes dela" .


Parece negativo, não? Embora seja um autor irônico e até bem humorado, isso reforça que cabe a cada um de nós escolher de que ângulo quer ver as coisas: a velha história do copo meio cheio ou meio vazio.
Essa reflexão me levou a escrever o texto abaixo, inspirado num post-desabafo da jornalista Marli Gonçalves em seu blogue, uma das pessoas mais alto astral que conheço (e admiro) e que, vez por outra, como é humana, também se irrita.



Ela era fascinante! Ser feliz era sua sina, e disso jamais desistia. E sem a mínima culpa procurava alegria de lupa. Vocação para a leveza, diziam alguns. Pouca exigência, acusavam outros que a chamavam (pelas costas, claro) de Poliana, Barbie, Chapeuzinho, Querubim.
Nem aí para o que pensassem, ela seguia vivendo segundo sua opção de preferir a luz nem dando bola às tantas interpretações.
Aprendeu a lidar com as tristezas, gastar energia só para resolver o necessário, lixar da vida as asperezas, optando por se concentrar mais no que esta lhe trazia de bom, de positivo.
E, leve, seguia feliceando vida afora, deliciosamente produtiva e confundente e, por isso mesmo, incomodando a muitos.
Até que um dia, a pressão foi demais, e ela acordou de mau humor, revoltada por ter que lidar com tantos contratempos. Afinal, ela vivia no Brasil, o que explica tudo.
Ninguém soube explicar o que aconteceu, nem ela mesma. O pior é que o seu estouro não foi levado a sério. Para a maioria, quem aprendeu a sorrir e escolheu essa expressão para
se representar não tem problema algum. E mais uma vez ela se viu só.

sábado, 19 de setembro de 2009

Um gostar distraído


Tarcísio gostava de Dinah. Não era por causa do seu jeito indireto, quase perpendicular de olhar. Não era pelos gestos contidos, pensados. Nem pelo jeito casual de se vestir. Mas talvez pelo que de sedutor ela escondia com a timidez, a cabeça baixa, a fala num fio, quase sussurrada, parecendo sempre meio assustada.


Gosto não se discute, e Tarcísio nem tentou descobrir a razão dessa atração absurda, nexo algum aparente. Foi-se apenas deixando levar pela garota de passos leves, que à sua maneira oscilante, ia-o conduzindo cada dia mais para dentro de seu mundo muito particular. E, como a maioria dos homens sofre de retardo emocional, Tarcísio não fugia à regra, por isso nem percebeu quando foi que aquele gostar cresceu a ponto de não conseguir mais nomear.


Já Dinah, ah a Dinah... por debaixo da aparência calma, do jeito meio sem jeito, essa sabia o que queria, e esse querer tinha um nome: Tarcísio. Sem os pendores próprios da beleza, ela tratou de cedo alimentar outros atributos bastante especiais, ainda que pouco valorizados: o ouvido, a compaixão, a paciência, a emoção sempre latente. Cercava-se de saberes e vivia rodeada de livros, por isso sempre tinha o que acrescentar ou forma de confortar a quem quer que precisasse ser escutado com atenção e carinho.


Quando conheceu Tarcísio, algo de muito estranho aconteceu. Era o homem de seu destino, mesmo que à primeira vista lhe parecesse um sonho absurdamente distante. E, como o Universo conspira a favor dos que desejam de forma tão arrebatada, ele foi se achegando e se envolvendo ainda que distraído. Dinah bem sabia que para ele era tudo apenas curiosidade. Por isso teve que aprender a desenvolver a calma, e não perder o controle com os esquecimentos, as traições e as dissimulações. Teve que aprender a fingir, e isso não era da sua natureza.


Enquanto isso, sem se aperceber, Tarcísio estava sendo enredado. Certo do domínio da situação e a porta de saída sempre aberta, ele abusava. Magoou tanto Dinah que, um dia, ela não aguentou mais e trancou as entradas. Bem que ele tentou se desculpar, prometeu até mudar. Descaso, para ela, era imperdoável. Era justo esse o seu limite.


Dizem que até hoje Tarcisio lamenta a perda daquela que nada lhe cobrou, muito lhe deu, a única que o fez feliz embora ele tenha custado a notar. Já Dinah, mesmo sofrendo a perda, seguiu o seu caminho.


E muitos não compreenderam quando, logo depois, ela começou a circular com Domingos, seu colega da faculdade. Tão tímido quanto ela, nada atraente, mas gentil e delicado, o rapaz foi seu abrigo e seu apoio naquelas horas difíceis. Ela até parecia mais bonita e segura de sí. Ficaram juntos por um tempo, fizeram planos. Até que o olhar enviesado de Dinah cruzou com o de Marcel, campeão de esporte, o gostosão da hora e só aberto a relacionamentos de superfície. E, de novo, ela caiu no conto do Homem de seu Destino. Tem gente que não aprende.


(*) " A menina no espelho", de Norman Rockwell, pintor e ilustrador norte-americano.

(**) Vai bem também ouvindo Maria Bethânia cantando "Grito de Alerta", de Gonzaguinha. Clique aqui.